Pouco mais que a sexta badalada e o dia de Maria Augusta inclina suas pálpebras para baixo, roubando o amarelo ultravioleta reflectido janelas e portarias abaixo. Seus produtos parecem esgotados. Pois parecem. E sob o efeito do caminhar de tantas subidas em descidas, desde o nascer da manhã feita em breve memória, até o ponto mais baixo de toda a sua impaciência, inicia-se um conhecido ritual de encerramento.
Reconhecendo-se na trama de um instante da tarde, noutro da noite, praticamente tudo de si fora vendido, observado, transferido ou cobiçado por entre as rugas de suas travessas. E de lá de cima, acomodados na geometria de suas construções, propósitos ilógicos de todos os cantos da cidade executaram-se dentro de suas próprias buscas. As recepções começam a se despedir ao invés de receber. O dia sai e a ordem, como na sua normalidade, não mais há.
O chá sorvido pela senhora ao lado, caminha em seu ventre em direcção ao supermercado. A lata de spray colorido agita-se dentro da mochila d’outro moicano urbano, jovem na nobreza de seu sangue desconhecido, mas antigo na repetição de suas intenções. A lágrima dos muros escorre para dentro das bocas-de-lobo, lavando as calçadas para os rápidos pés encouraçados que se encaminham de volta, e aqueles outros desnudos que buscam se desencaminhar esta noite, sem volta.
Hoje cedo os bares serviam o café feito na combustão mais satisfatória para todas as urgências do dia que se seguiria. Já agora os cafés aquecem os maquinistas e suas locomotivas com álcool e petiscos, a lenha etílica perfeita para uma reunião de fogueiras e incômodos suspiciosos. As calçadas cedem-se de todas as suas frenéticas passadas e acomodam cadeiras sujas para as bundas nem tão mais sujas assim. O som é o de vidro barato, pleno em celebrações liquefeitas. Muda a temperatura…
O suor fermenta junto a um copo fino de alívio e que misturado à levedura de suas salivas, escorre para dentro do espírito com mais uma nota sobre os ruídos que se encerram ao seu redor. Torna-se imediatamente menos impossível se esbarrar com o acaso e com os amigos, que na inevitabilidade de se esborracharem entre si, abraçam-se em pequenos encontros líquidos, imprevisíveis e deliciosamente acolhedores.
A veia cinza da cidade pulsa duas verves mais forte como é seu costume para o horário e as cores fosforescentes das impossíveis ofertas ribombam junto com a maior parte das expectativas. A promessa do ‘ave-marias’ citadino se acimenta nas unhas pintadas e nas comandas gotejadas pelo perspirar das garrafas. O esquálido congelante dos refrigeradores abaixo dos balcões une-se milagrosamente ao calor e ao abraço de goladas bem-vindas para a noite.
A intempérie do concreto confuso em sua temperatura, encerra-se nas linhas noturnas que vão acomodando novas sortes. O conhecido perfume feminino das repetidas possibilidades ajuda a inebriar aquilo que já é anestésico em sua mais cândida essência e os amigos misturam-se aos inimigos, e ninguém mais se reconhece. Entretanto, irresponsavelmente, tudo está conectado.
Exactamente no momento em que dona Maria Augusta dá a boa-acolhida aos seus desencontrados, que à procura de se des-anestesiarem, encerram o ciclo do Sol do dia sob o sal de sua acidez, e traspassam portal da noite adentro rumo ao seu seio morno, quase sujo, cheio de marcas e ausente de quaisquer julgamentos.
Aqui a noite não cai, mas sim ergue-se…
San Picciarelli