A Última Araucária

A Última Araucária
Todo dia a vejo pela janela de meu apartamento: linda, garbosa, orgulhosa, altaneira, a araucária da Rua Caio Prado está lá, solteira, única e, pelo que sei, última.
Não sei a razão, mas, desde criança, araucárias me fascinam. Talvez por ser diferente, ou por esquista, talvez por obsoleta, essa árvore sempre me chamou a atenção.
Desde sempre, então, fixei na memória as araucárias de São Paulo. Nasci em 1962: de lá para cá, lembro – bem – das localizadas na av. Ricardo Jafet, em um grande terreno próximo á confluência com a Rua Vergueiro, àquela época trilha obrigatória para quem, como minha família, saía da Vila Mariana em direção à Via Anchieta. Aquela era grande; porém, inserta em área com vegetação concentrada, vivia obscurecida. Morreu, de morte matada, na década de 80.
Também por aí sumiu uma outra, a que dominava a inclinação na qual ergueu-se, no fechar da gestão Reynaldo de Barros na Prefeitura paulistana (como esquecer os tijolos afrontosamente marcados com “RB”? Eles ainda estão lá, como assombrações), o Centro Cultural São Paulo. Sumiu! Foise-, ao que consta, de morte morrida: não conseguiu sobreviver, suponho, em meio às radiações emanadas daquele tipo de “administração” da coisa pública.
Não lembro de outra. Juro, não lembro. Em vão ando por Pinheiros, onde pinheiros não há senão alguns alienígenas, importados, como os romanos, decerto mais chiques. Caminhar pela rua dos Pinheiros se trata do mais puro exercício de masoquismo: não há árvores, nenhuma, nada!, muito menmos pinheiros.
Acho que os tais pinheiros que deram nome ao bairro se tratavam, exatamente, das araucárias. Debret fixou-se numa, ao registrar, da Ladeira da Memória, a colina histórica, pondo-a em primeiro plano em soberba aquarela. O fez, é claro, para determinar a árvore que mais significava a Piratininga do Século XIX, aquela vila obscura e medíocre, mas fundamental para se alcançar o sertão: o Tietê estava lá.
E só sobrou uma? Essa, a que vejo da janela com gosto e medo, temor de que o dono do terreno a ponha abaixo em nome do “progresso”, essa que está linda, copa cheia, 360 graus de verde intenso. Essa que, inexplicavelmente, subsiste bem ali, no centro, entre Caio Prado e Marquês de Paranaguá, eu a vejo da Augusta, dando costas àquele pesadelo que é o trânsito da Consolação.
Ela está lá, resiste, e vem resistindo há quanto tempo? É autóctone, não tenho dúvidas, ela está lá desde antes de São Paulo, mas corre o risco de ser abatida pela mesma São Paulo cuja história deu-se e dá-se ao seu redor.
Quantas mais existirão em São Paulo? Não sei, não conheço outra, e não me conformo com isso: trata-se de uma planta originária, das que sempre existiram aqui, mas que, por uma inapelável sentença humana, erradicou-se. Será por que é estranha? Ou feia? Ou diferente? Ou distinta? Ou por que não tem perfume, nem flores? Ou por que, sem parentalha, viceja numa diversidade tal que a pasmaceira social teria de liquidar?
Eu não sei; contudo, já que tantas há, e por causas tão ridículas quanto escusas, proponho uma ONG: a dos amigos da última araucária de São Paulo, a da Caio Prado. Que a defenda, lute contra sua eventual destruição, e que, com base nisso, pugne pelo replantio delas: a araucária não pode desaparecer!

araucariaTodo dia a vejo pela janela de meu apartamento: linda, garbosa, orgulhosa, altaneira, a araucária da Rua Caio Prado está lá, solteira, única e, pelo que sei, última.

Não sei a razão, mas, desde criança, araucárias me fascinam. Talvez por ser diferente, ou por esquista, talvez por obsoleta, essa árvore sempre me chamou a atenção.

Desde sempre, então, fixei na memória as araucárias de São Paulo. Nasci em 1962: de lá para cá, lembro – bem – das localizadas na av. Ricardo Jafet, em um grande terreno próximo á confluência com a Rua Vergueiro, àquela época trilha obrigatória para quem, como minha família, saía da Vila Mariana em direção à Via Anchieta. Aquela era grande; porém, inserta em área com vegetação concentrada, vivia obscurecida. Morreu, de morte matada, na década de 80.

Também por aí sumiu uma outra, a que dominava a inclinação na qual ergueu-se, no fechar da gestão Reynaldo de Barros na Prefeitura paulistana (como esquecer os tijolos afrontosamente marcados com “RB”? Eles ainda estão lá, como assombrações), o Centro Cultural São Paulo. Sumiu! Foise-, ao que consta, de morte morrida: não conseguiu sobreviver, suponho, em meio às radiações emanadas daquele tipo de “administração” da coisa pública.

Não lembro de outra. Juro, não lembro. Em vão ando por Pinheiros, onde pinheiros não há senão alguns alienígenas, importados, como os romanos, decerto mais chiques. Caminhar pela rua dos Pinheiros se trata do mais puro exercício de masoquismo: não há árvores, nenhuma, nada!, muito menmos pinheiros.

Acho que os tais pinheiros que deram nome ao bairro se tratavam, exatamente, das araucárias. Debret fixou-se numa, ao registrar, da Ladeira da Memória, a colina histórica, pondo-a em primeiro plano em soberba aquarela. O fez, é claro, para determinar a árvore que mais significava a Piratininga do Século XIX, aquela vila obscura e medíocre, mas fundamental para se alcançar o sertão: o Tietê estava lá.

E só sobrou uma? Essa, a que vejo da janela com gosto e medo, temor de que o dono do terreno a ponha abaixo em nome do “progresso”, essa que está linda, copa cheia, 360 graus de verde intenso. Essa que, inexplicavelmente, subsiste bem ali, no centro, entre Caio Prado e Marquês de Paranaguá, eu a vejo da Augusta, dando costas àquele pesadelo que é o trânsito da Consolação.

Ela está lá, resiste, e vem resistindo há quanto tempo? É autóctone, não tenho dúvidas, ela está lá desde antes de São Paulo, mas corre o risco de ser abatida pela mesma São Paulo cuja história deu-se e dá-se ao seu redor.

Quantas mais existirão em São Paulo? Não sei, não conheço outra, e não me conformo com isso: trata-se de uma planta originária, das que sempre existiram aqui, mas que, por uma inapelável sentença humana, erradicou-se. Será por que é estranha? Ou feia? Ou diferente? Ou distinta? Ou por que não tem perfume, nem flores? Ou por que, sem parentalha, viceja numa diversidade tal que a pasmaceira social teria de liquidar?

Eu não sei; contudo, já que tantas há, e por causas tão ridículas quanto escusas, proponho uma ONG: a dos amigos da última araucária de São Paulo, a da Caio Prado. Que a defenda, lute contra sua eventual destruição, e que, com base nisso, pugne pelo replantio delas: a araucária não pode desaparecer!

Eduardo De Carvalho

5 Feedbacks

  1. Alexandre Dias 20. jun, 2009 em 20:51 #

    Excelente texto, parabéns ao Eduardo por ilustrar de modo tão artístico esse indivíduo remanescente da mata de Araucárias que já foi gigantesca. Poderia colocar a pintura do Debret!
    Um abraço

  2. Lisandro Brandão 24. set, 2009 em 11:34 #

    Texto muito bacana. Infelizmente, tudo em São Paulo parece ser descartável, até mesmo a sua natureza. Sou admirador desta árvore, tanto que este ano em uma viagem a Campos do Jordão, decidi comprar um sacos de pinhões e fazer mudas para sair plantando pelas praças do bairro onde eu moro. Alguns brotos já saíram, estou esperançoso que algumas de suas copas majestosas voltem a a alegrar a acinzentada paisagem paulistana…Um abraço

  3. San Picciarelli 24. set, 2009 em 13:47 #

    Obrigado pela participação Lisandro.

    Esse texto é da lavra de nosso talentoso colunista, Eduardo de Carvalho.
    Farei certeza que seu comentário chegue a ele.
    Participe da Central sempre que quiser, está à vontade.

    San Picciarelli
    Editor

  4. Rodrigo 20. out, 2009 em 19:30 #

    Parabéns, se houvessem mais pessoas, como você certamente nossa querida São Paulo estaria mais verde, mais alegre, mais bela e infelismente, o governo, tanto o estadual, quanto o municipal, não se lembra dessa majestosa árvore, que já foi comum em Sâo Paulo, deveriamos lutar por ela, que ela seja usada em paisagismo, que nos reflorestamentos, não esqueçam dela, pois nos atuais planos de reflorestamente, a araucária não está incluida, eu já faço minha parte, mesmo que pouco, mas faço, mando e-mails para a prefeitura pedindo que incluiam a araucária em seus planos, queria pedir que você e mais quem ler esse comentária, vá no site da prefeitura e envie seu pedido também, a araucária não pode ser extinta.

  5. Robson da Silva 16. abr, 2010 em 9:08 #

    Belo texto, infelizmente é essa a realidade das grandes cidades.
    Árvores sendo abatidas sem dó pra dar lugar a edificações, condomínios, etc.
    Como amante das araucárias fico triste com tudo isso e a mim sobra ir pra Serra da Mantiqueira ou pro sul do Brasil ver o que ainda sobrou dessa imponente árvore.
    Grande abraço.
    Robson

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