Aperte, para não ser Apertado…
Durante uma caminhadazinha pouco apressada pelas calçadas da baixa-Augusta, uma jovem ‘bacanamente’ arrumada em suas cores e acessórios – tipo agradável típico daqui da região – livra a orelha direita de poucos piercings de uma camada de cabelo azul-e-vermelho com mais uma presilha colorida. Escaneando a faixa de pedestres e o luminoso do farol, ela tira o seu celular da bolsa e antes de regovernar seu olhar e marchar em direção à rua Peixoto Gomide, ali mesmo no final da tarde, abre o flip do aparelho e diz “Alô?”.

Aperte-se
Do outro lado da linha, alguém deve ter estranhado um bocado ao ter ouvido ”… ela não vai poder mais falar, valeu!”. E enquanto recuperava o fôlego afogado no susto que ainda estava mergulhado nos fundos do estômago, branca como a parede às suas costas, ela mal podia acreditar que acabara de ser assaltada por um garoto de bicicleta que ainda teve as manhas de concluir a chamada por ela, enquanto se re-equilibrava em alta velocidade Augusta abaixo…
Que merda… Mas pior mesmo seria então se eu dissesse que não é dificil registrar momentos assim. Seria bem pior se eu falasse que isso já está ficando meio comum por aqui. Bem, se quiser eu digo. Ok, lá vai: o pior é que tem acontecido mesmo. Demais, eu diria. Como a própria Rua Augusta tem lá uma habilidade própria para deixar suas marcas, quem a frequenta mais contantemente aprendeu rápido que se dispor ao bate-papo caminhando junto ao meio-fio (outras vezes até na calçada mesmo) pode ser um risco.
"Maria Augusta"
Já falei isso antes n’outra crônica. Certo, mas por que parar se a coisa em si ainda persiste? Não basta a boca amiga avisar de ouvido a ouvido que os roubos e furtos só fazem crescer aqui e em todo canto, que não se pode desfrutar do privilégio de simplesmente caminhar à vontade sem todos os alarmes ligados… veja: não basta! Precisamos de algo mais.
A rua continua belíssima e terrível. Plena de ponta a ponta, movimentada, viva e cheia de verve. Os butecos ainda acolhedores e a engenharia de suas linhas ainda lindas entre a sujeira, misteriosas em seus grafites e lambe-lambes espalhados pelas eiras e beiras. A comida continua boa, o chopp geladinho e a conversa desdobrável.

Padaria "Bella Paulista"
O que incomoda é que a própria velocidade obrigatória, para a nossa própria proteção, nos vai impedindo pouco a pouco de perceber mais sobre este pedaço tão especial da cidade. Me diga quantos lugares de São Paulo você conhece onde tantas pessoas diferentes circulam no mesmo espaço? Quando eu digo diferentes, quero dizer bem distintos mesmo. Punk, padre, velhinha, ou um padre-punk-já-velhinho… no mesmo café.
Do contrário, seria impossível reconhecer os paralelos únicos entre a Dona Robertina e a própria rua. Ela mais uma que migrou de algum canto do país para tentar a sorte pelas bandas d’onde a regra é o azar açucarado com a criatividade e o bom-humor. No meio, milho salgado ou dôce. E enquanto eu ia pensando no assunto com o saco de pãezinhos quentes à tira-colo, distraído por dentro – mas bem atento por fora – acabei esbarrando no Seu Damião.
Poeticamente, minha leve cotovelada se estabacou no bom humor do cabra-senhor de um sonoro “bater pode, mas num deixa o pão cair…!”. Meia dúzia de risadas para frente, Seu Damião remenda um cômico “só tem feladaputa nessa cidade… ô povo loco… vai com deus, meu cumpadrinho” e lá ganhei eu mais um ‘com-padrinho’ e vizinho, que nem sequer mora por aqui. Sem deixar cair o meu pãozinho – é, aqui não se deixa cair o pão ao invés da peteca; ninguém tem tempo de jogar peteca por essas bandas - retomei o rumo me desviando dos outros ternos e saias bem mais apressados que eu e Damião.

Boate "Inferno" (letreiro)
Mesmo com duas delegacias bem pregadas entre os dois pontos deste trecho da baixa-Augusta, ainda assim, se demora meio que de vinte a quarenta e cinco minutos para que meninas ofegantes e de olhos estatelados possam explicar porque não conseguiram ir além do “Alô?”.
E falando em voltar para casa, por volta das 10 e pouco da noite e com a rua ainda movimentada, uma moradora do prédio onde eu moro foi jogada no chão por dois menores e teve a sua bolsa subtraída sem dó. Não adiantou gritar nem correr e o salto alto, dessa vez, agiu como inimigo. Minha avó dizia que “… não demora nada e tudo virá pó de novo” e me pergunto: o que vai virar um pendrive cheio de documentos de pesquisa para um TCC, cartões de crédito e débito já cancelados e uns 45 reais? Sim, a Dona Olga tem razão: vai virar pó, e cola, e crack, ou qualquer outro sedativo.
Não se pára, praticamente, nem no farol. Se parar, a janela está fechada. E quem não tem pressa, tá sedado…
Mas olha só… Claro que o trabalho da polícia não é fácil… nem de longe. Sou daqueles que prefere depositar sua crença na máxima de que mesmo diante de todos os contratempos e pormenores, o buraco é mais embaixo quando o assunto é segurança pública. A política do medo nos converte em cínicos respeitadores.

"Night Bikers" Pedalantes do Bem
Sim, você deve respeitar a arma, quer ela esteja na mão da lei para mantê-la, ou da rapaziada anestesiada e na busca de ter o que não conseguem ter sem colocar a própria lei em cheque. O problema é que o próprio instrumento da lei, desanda vez ou outra. No que confiar? Bons tempos eram aqueles em que eu pensava em ser bombeiro e achava a farda algo acima de qualquer suspeita. Nessa época eu corria para chegar em casa depois da escola e comer rabanada… Virei psicanalista, cronista e pesquisador e em quase 11 anos de prática, percebi que sonhar não dói mas confesso que ainda não entendi a piada. Não deveríamos ao menos crer que o mínimo seria estar acima de qualquer suspeita? E assim vamos sendo ‘apertados’ a nos tornar cada vez mais cínicos…
Já hoje, fácil mesmo tem ficado cada vez mais o trabalho da malandragem, de bicicleta ou a pé mesmo… Demora tanto tempo, a organização desorganiza-se esquina a esquina, que é quase garantido que se você não apertar o passo, alguém acaba apertando você.
E eu não estou falando em ser apertado na frente daquela escadinha com a luz vermelha não…
San Picciarelli