Hoje pela manhã bem cedinho saiu no jornal que provavelmente a cidade teria hoje o dia mais frio do ano. Dessa vez, os noticiários não estavam brincando. Não falo somente das roupas pesadas e dos passos um pouco mais apressados que a urgência normal da cidade. Mas sim, de outros tipos distintos de baixa temperatura…
A sensação térmica do ar é ainda mais baixa quando faz par com a sucessão de spots no rádio e na tv, dando conta de uma incômoda sensação de despreparo do sistema de saúde do estado. Números são corrigidos, alarmes são soados e desculpados, um pai chora a perda de sua filhinha em São Paulo à frente dos microfones e câmeras – a única coisa a se fazer após ir de hospital a hospital, posto a posto e ouvir apenas “isso não é nada”. Outro marido faz o mesmo no Rio de Janeiro, após dizer o adeus forçado à sua mulher e filho (ainda para nascer). A dor é deles, mas o medo é todo nosso.
Problema? Sim, e como…
Influenza A H1N1, esse é apenas um dos seus nomes. Enquanto as autoridades passam-nos o discurso que “tudo está sob controle” e que “estamos preparados”, velamos nosso rosto com máscaras cirúrgicas, antecipamos e adiamos prazos escolares ou profissionais, olhamos para dentro de nossas blusas pelos metrôs e ônibus e nem sequer devemos dar as mãos nos cultos e encontros pelas igrejas e butecos da cidade. Não importa a religião ou ocupação, hoje, no dia provavelmente mais frio do ano, estamos um bocadinho mais separados.
Mas o problema não é apenas o frio centígrado. Para que não me estenda muito nessa breve crônica, darei apenas um endereço e anexarei a ele uma imagem. Se o amigo leitor estiver bem acomodado, aquecido e protegido, talvez lhe seja possível “ignorar ao contrário” e fazer o não-óbvio: deletar a pressa enquanto pensamos juntos num outro tipo de frio – talvez bem pior que a baixa temperatura: o frio moral.

Esq. da R. Antonio Carlos com R. Frei Caneca, as 12hs47, Julho/2009, dia 24 - by SP
Com a câmera na mão – armamento imediatamente disponível – ajustei a lente… velocidade… iso… abertura… não fechei os olhos.
Uma pontada surpreendente. Meu coração doeu.
De frio.
San Picciarelli
