Cara de Augusta

Cheia de preferências e gostos, não há pele em seu semblante desforme que não se enrugue diante das milhões de caras que faz. Com inúmeras facetas, mil faces, cada um dos rostos que se encerra em sua forma faz uma careta para olhar retina adentro daquele que ousar cruzar seu caminho.

Seja uma careta rija em dia de frio ou convidativa em todos-os-dias de calor, a língua de fora pode ser tanto um deboche como também um convite escrachado. Pode vir de qualquer um, para qualquer outro. Pode ser para alegrar ou para intimidar. Pode ser, pode nem sequer tentar ser…

Se o traço do seu caminho pela Augusta for linear, não fará qualquer diferença cruzar a rua e trocar de calçadas. Você estará sempre muito longe de compreender os pormenores de cada ângulo e nem vai notar que ao lado da entrada do hotel para quem não é daqui, está a calçada de saída para quem daqui sairia se pudesse… se quisesse.

Não vai ser incomodado com a arte diferente que, se contemplada, lhe incomodará um bocado. Talvez a ponto de você se questionar se aquilo é mesmo, realmente, arte. Mas aqui até a arte não tem dublês.

Se o seu próprio compasso bater no mesmo tempo do relógio que tica abaixo do asfalto por mil vezes recoberto, que ruge por entre as rachaduras das calçadas bucólicas e imundas em toda a sua imaculada descaradez, é seguro que até o seu vocabulário mudará. Você torna-se inseguro, perde a palavra, rouba-se do próprio termo e perde o passo, parando para ver. Se decidir se perder de vez, até paga para ver. Leva um tempo não-turista para isso mudar e você ver ‘mais’.

Quando foi a última vez que você comprou uma idéia? Por certo que há bem menos tempo do que a última vez em que a consumou depois de pagar por ela. Sem buscar criar em você qualquer fantasia de que existe algo por aqui que pode ser seu, sem que você pague por seu preço, a oferta do sublime e do espúrio é qualquer coisa, menos cínica. Tudo mostra seu valor.

Sem cara feia mas novamente, cheia de caras e bocas, Augusta não fará quaisquer esforços para se redimir da sua desvergonha. Se lhe oferecer jazz, será jazz genuíno e mais caras. Se lhe disser ‘carne’, será um mercado de carne real e mais muitas caras. Até se lhe vender os pensamentos logo de cara, via uma enorme cara escancarada para fora de seus próprios irrealismos, toda pintada, com voz impossível e cartões feitos e escritos à mão; será cara sobre cara e mais a sua cara, transformada. E é tudo real…

De línguas para fora da sua careta multi-forme, peculiarmente única, trocará de você o seu vis-a-vis todo elaborado pela possibilidade de um mergulho obscuro no lindo indescoberto, no sujo sem qualquer cobertura, na música dôce, no som ardido, na certeza disso, na possibilidade daquilo.

Diferente das outras eiras da cidade, nessa beira tudo por aqui pode permanecer o mesmo, com exceção da sua cara, pois é na gênese de sua própria expressão que habita o pure-visage que dela se deprende.

É da própria cara que a deidifica que nascem todas as outras, e jamais o contrário.

Se tiver baixa tolerância cutânea, deixe-se então intoxicar pelo fumo e pelo brio raro de um sítio arqueológico-urbano a céu aberto e tente, se ousar, posar. Você já sabe que qualquer tribo tem livre trânsito e que o facto de não ser tão bem-vindo em qualquer outro canto não lhe restringe espaço por entre essas linhas esquálidas, baixa-Augusta abaixo.

Mas tente fazer uma cara que não seja a sua, e note o ruído ao seu redor quando for encarado por ollhares reais, deformados ou magníficos, milidécimos ou eternos, aleatórios ou simplesmente ao léu… e sorria: você está na baixa-Augusta.

Se a sua cara é real, então você é bem-vindo.

Se não é, foda-se.

San Picciarelli


2 Feedbacks

  1. Sardinha 04. set, 2009 em 23:04 #

    Muito bom. De quem é a foto?
    Abs
    >

  2. San Picciarelli 08. set, 2009 em 8:08 #

    Essa não é minha não Sarda (anônima).

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