“Comunicação a uma Academia” – Espetáculo

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Em espetáculo primorosamente produzido e dirigido por Roberto Alvim, Juliana Galdino tem um verdadeiro triunfo ao viver o macaco criado por Franz Kafka, em sua cruel e cruenta tarefa de explicar aos acadêmicos (nós, a platéia) sua “humanização”.

Pensando bem, o macaco é um homem de sorte! Ele pensa, fala, pensa sobre o que fala e, de lambuja, confronta o humano na casa do homem (uma academia), na condição de ex-animal re-configurado pela civilização. Com seu discurso, o macaco parece resolver, resolve impasses da filosofia e da linguagem; e, de quebra, dá um chute na bunda do homem. O macaco é, realmente, um homem de sorte.

Falando francamente, sorte também a nossa de ver a transfiguração simiesca de Juliana Galdino no espantoso macaco kafkiano, que discursa sobre sua condição humanóide para uma academia silenciosa, incapaz de rebater os argumentos. Margeada por uma luz ambígua e sombria, que nunca recorta precisamente seu rosto, a atriz serve-se de todas as nuances interpretativas, articulando milimetricamente partituras de corpo, voz e dosada emoção para fornecer uma interpretação solo rigorosa e atormentada.

Pensando bem, não estamos diante de um espetáculo. Postamo-nos, sim, como porquinhos-da-índia numa experiência a serviço do macaco, que nos manipula com som, luz, vozes, silêncios e grandes vazios. Impotentes, estamos ali, sentados, como prova dos argumentos simiescos, que se apropriam da linguagem que nos enforma, e que agora se volta contra nós. Somos o zoológico que o macaco, antes de tornar-se humano, excluiu para escolher atuar no seu teatro de variedades. Pensando bem, o macaco está certo.

Por esse trabalho, a atriz terminou sendo indicada ao Prêmio Shell 2009, concorrendo junto com Fernanda Montenegro e Betty Faria. O espetáculo já foi encenado antes, no Teatro Imprensa, mas no espaço preciso do Club Noir ganha outra dimensão. É realmente imperdível, e está em curta temporada.

Serviço:

R. Augusta, 331 – Consolação – Centro.

Telefone: 3257-8129.

Ingresso: R$ 20.00

sexta e sábado: 21h | domingo: 20h.

1 Feedback

  1. Eduardo de Carvalho 05. set, 2009 em 9:40 #

    Para constar: a crítica acima foi feita pelo jornalista Luiz Marfuz, de São José do Rio Preto/SP, quando da apresentação do espetáculo no Festival de Teatro de 2009.

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