O Abraço…
// janeiro 18th, 2010 // Crônicas, San Picciarelli
Coisa gratuita. Coisa.
De todos os gestos humanos, talvez o de maior proximidade física disponível. Não precisamos ser íntimos de alguém para trocar um. Porém, um abraço pode ser até mais profundo do que um beijo. No beijo os lábios se encontram. Em um abraço são os corações dentro do peito que se tocam. No abraço é peito com peito e laço de braços. Estes podem estar apertados ou frouxos.
Inventamos o tempo e como nos mensurar dentro do espaço. Ainda bem que não inventamos o abraço…
Imagine o primeiro? Como se não houvesse outro por onde, um avance na direção do outro, uma trombada, uma pegada… paz. Tal qual mastigar, o abraço digere quase qualquer coisa. O abraço ribomba.
Até quando meio bruto, não se reclama quando uma vértebra estala, uma costela ou duas se contorcem. Se acorda. Agradece-se.
Sob a forma de amor humanizado na carne, a mecânica do abraço é simples, direta, eficiente. Em sua contramedida o abraço obtém exatamente aquilo que oferece, com o mesmo peso.
Em um se-entrelaça cheio de si, podemos aquietar o desafio do isolamento via o caminho do abraço. Já não somos assim tão maneiros naquela hora negra daquele dia, imagine se não soubéssemos abraçar? Imagine se não soubéssemos como ser abraçados…?
Da ira térmica que se desaquece nas pulsações da nossa colisão, é no impacto de praticamente qualquer abraço que a temperatura de nossa moral regula-se de uma maneira quase homeostática. Abraço não tem estática. Abraço é interferência.
É importante que o abraço se desenvolva, ou estamos fadados a um esfriamento global. Fardo pesado, roupas quentes demais essas nossas peles. O abraço é ecologicamente correto. Não desperdiça nada, recicla tudo. É nos dialetos misteriosos do abraço que a égide do cessar temporário de nossas dúvidas se agiganta e se rende.
O abraço despenca-se em si próprio, enquanto nos apertamos para nos segurar.
O exercício da válvula cardíaca, a transmissão do neuro-impulso, o chacoalhar do espírito dentro do contorno que nos desenha. Lá de dentro, mais uma imensidão particular de universos plenos em elemento, limitada em seus dramas e cores, nasce o desejo do abraço. Um pouco mais ao lado, na área oca, a necessidade do abraço.
por San Picciarelli




