Trecho Cão

// janeiro 20th, 2010 // Colunistas, Crônicas, San Picciarelli

Na vida pouco útil das esquinas altas da baixa, não há. E só o digo como um cachorro.

Da Praça Roosevelt ao Conjunto Nacional se há de todas as utilidades da vida, mas praticamente nada pelas esquinas. A vida pára no ângulo das ruas apenas quando fecha o sinal… E não dura muito.

As bocas de lobo próximas demais da boca, revelam os segredos lavados à enxurrada, primavera a primavera: não há senão raro o perfume do dia, palmo e meio do chão acima. Mas passa rápido o vento, sim senhor. E há também o som, sub-tonado tão obviamente pelo bafo emborrachado dos calçados ao redor, pois que a verdadeira sorte da rua pertence a aquele que tem os pés mais próximos do chão.

É dali, somente dali que se pode ver que a senhora de roupas puídas anda mesmo sem as suas calcinhas. Só se você for um cachorro. Outro eixo, dois postes. Noutras horas nada tão decadente assim. (…)

Às vezes é a menina da madrugada. Ou a distraída passageira que sai do taxi. Talvez então a delicadeza descolada que se agacha para o batom que despencou de si. Bem melhor e mais útil que o olfato de um cachorro urbano é o seu olhar.

O velho e sua vassoura. A gravata e seus estrangulamentos. O segurança e a insegurança. A porta e a entrada. O afago e o afano. O pleite e o deleite. A diferença… Só um cão enxerga no mundo, o mundo que ninguém mais pode ver.

Nas praças, pulgas e fugas.

Nas marquises, alento e contentamento.

Pipoca. Manteiga queimada.

Olhos esbugalhados e pão aos bugalhos.

Sem dono senão o próprio focinho, cantarolo minhas disputas pelos cantos como minha mais fuçada epítome. E de cara para o meio da rua, lado a lado com as esquinas (nú em pêlo) paro pernada e outra para poder ouvir todos os apelos. Cinco rosnadas.

Insensatez. Romance, quirela, fardo, fado e tecnopunk… Do meio, uma curva mais bem delgada indica que o perfume a identifica como gênero imediatamente oposto ao meu. No instante, adianto-me. Feromônio. Ah, feral hormones… Quatro voltas.

E na confusão quase amônica da rua, lá do outro lado da esquina, nossos bigodes se endurecem por entrem as pernas do mundo paradas e à escapada de que a trilha fique verde. Eu com cara de pet, ela com visual de shop.

Dois latidos agudos, uma dúvida grave.
Ela olha, pela via.
E eu a via.

San Picciarelli


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