Líquidade
// fevereiro 3rd, 2010 // Colunistas, Crônicas, San Picciarelli
fonte: http://megustaaugusta.blogspot.com
Estas ruas que se contorcem por entre as suas próprias eiras, buscam senão evitar o inevitável. Evaporando a sua paciência desde dentro das lamúrias de todos nós, a ladeira segue a si própria e escarnece os nossos piores perfumes. As veias transbordam sujeira. A noite é azul. O cheiro é farto. A impossibilidade de tudo é tão doce e tão linda.
Não fosse a sábia bengala que apoiava os seus costumes, a bela senhora chegaria um verão depois do café estar pronto. E se nem por desdobrar o papel suado dos fanzines, nem mesmo que se descolassem todos os seus beijos encardidos e escondidos na cola dos lambe-lambes, nem que chova o dilúvio dos desavisados: nada demove o a identidade do seu trecho.
Nem mesmo os deuses passam por aqui,
pois que aqui apenas dormem.
A temperatura aqui é a hora e ninguém se reconhece como inocente. Nem mesmo o pueril. Nem mesmo o alienígena geo-esquecido às portas e aos batentes. Nem mesmo a enxurrada é capaz destingir o cromo-concreto dos seus quotidianos. A sua tintura forte está nas fibras de todos nós, na grande trama da sua saia rodada. Mas e quem se atreve…
Horas atrás a cicatriz enrubescida no termômetro avisava que o segundo fora o dia mais quente do ano. Até parece que eles não freqüentam a baixa… Por aqui, a temperatura não se manca nem mesmo com o cair do dia. Nem mesmo que o próprio dia tropece. Nem mesmo que a chuva se desabe de si.
Mais fácil é medir a hora mais quente do dia. E que se defina hora como aquele compasso, circadiano, que marca a sua pulsacão flébil e pungente. E que se defina dia como sendo, liquidamente, de seu primeiro ao último batimento.
Aqui há tanta luz à noite quanto em qualquer outro instante. Em embate, um brilho escorrido, quase pegajoso, se esparramada das retinas alheias até a tênue luminosidade das suas lâmpadas cor de carne.
Talvez o único canto em que aquelas espécies do tipo escura de luz se inventam. Seguramente a razão pela qual os afogamentos encanados do descuido pouco efeito têm por aqui. Em frente ao teatro, às margens do mercado ou namorando com carinho as portas perigosas dos salões das putas, tudo se afoga em luz.
E combalida apenas pela falta de idéias sobre o que se pode ser feito com tantas idéias, a água serve senão para coroar o labor escrito nas ranhuras das mãos às tortas de Dona Maria.
A temperatura é alta, mas isso não é novidade. Assim ela é, como um Cáucaso desvairado a céu aberto no Ave-Marias da latino-américa… quando não morna.
A gravidade é constante e leva água e tudo em seu meio para a garganta mais genital da praça. Mas isso também não é novo.
Há um pequeno gafanhoto, que em todo o seu direito augusto, se inquilinou na companhia da minha xícara.
Esse sinal em particular eu não conhecia.
Na Baixa – pelos deuses – vai chover de novo.
San Picciarelli




