Arquivo: Histórias

Rua Augusta

// novembro 16th, 2009 // 5 Feedbacks » // Colunistas, Histórias, Luciana C.

augusta

Quem dera o mundo inteiro fosse como os quarteirões da rua Augusta, ali da avenida Paulista até a praça Roosevelt! Desde os engravatados que a descem até os boêmios que a sobem, passando pelas suas tão famosas moças e também pelos modernos e antenados, gente de todos os tipos e com todos os gostos convivem, se divertem e são felizes (ou ao menos tentam).

[ [ [ LEIA TODO O TEXTO ] ] ]

Aperte o Passo, ou Passe Aperto…

// julho 17th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Crônicas, Histórias, Noite, San Picciarelli

Aperte, para não ser Apertado…

Durante uma caminhadazinha pouco apressada pelas calçadas da baixa-Augusta, uma jovem ‘bacanamente’ arrumada em suas cores e acessórios – tipo agradável típico daqui da região – livra a orelha direita de poucos piercings de uma camada de cabelo azul-e-vermelho com mais uma presilha colorida. Escaneando a faixa de pedestres e o luminoso do farol, ela tira o seu celular da bolsa e antes de regovernar seu olhar e marchar em direção à rua Peixoto Gomide, ali mesmo no final da tarde, abre o flip do aparelho e diz “Alô?”.

Aperte-se

Aperte-se

Do outro lado da linha, alguém deve ter estranhado um bocado ao ter ouvido ”… ela não vai poder mais falar, valeu!”. E enquanto recuperava o fôlego afogado no susto que ainda estava mergulhado nos fundos do estômago, branca como a parede às suas costas, ela mal podia acreditar que acabara de ser assaltada por um garoto de bicicleta que ainda teve as manhas de concluir a chamada por ela, enquanto se re-equilibrava em alta velocidade Augusta abaixo…

Que merda… Mas pior mesmo seria então se eu dissesse que não é dificil registrar momentos assim. Seria bem pior se eu falasse que isso já está ficando meio comum por aqui. Bem, se quiser eu digo. Ok, lá vai: o pior é que tem acontecido mesmo. Demais, eu diria. Como a própria Rua Augusta tem lá uma habilidade própria para deixar suas marcas, quem a frequenta mais contantemente aprendeu rápido que se dispor ao bate-papo caminhando junto ao meio-fio (outras vezes até na calçada mesmo) pode ser um risco.

Maria Augusta

"Maria Augusta"

Já falei isso antes n’outra crônica. Certo, mas por que parar se a coisa em si ainda persiste? Não basta a boca amiga avisar de ouvido a ouvido que os roubos e furtos só fazem crescer aqui e em todo canto, que não se pode desfrutar do privilégio de simplesmente caminhar à vontade sem todos os alarmes ligados… veja: não basta! Precisamos de algo mais.

A rua continua belíssima e terrível. Plena de ponta a ponta, movimentada, viva e cheia de verve. Os butecos ainda acolhedores e a engenharia de suas linhas ainda lindas entre a sujeira, misteriosas em seus grafites e lambe-lambes espalhados pelas eiras e beiras. A comida continua boa, o chopp geladinho e a conversa desdobrável.

Padaria Bella Paulista

Padaria "Bella Paulista"

O que incomoda é que a própria velocidade obrigatória, para a nossa própria proteção, nos vai impedindo pouco a pouco de perceber mais sobre este pedaço tão especial da cidade. Me diga quantos lugares de São Paulo você conhece onde tantas pessoas diferentes circulam no mesmo espaço? Quando eu digo diferentes, quero dizer bem distintos mesmo. Punk, padre, velhinha, ou um padre-punk-já-velhinho… no mesmo café.

Do contrário, seria impossível reconhecer os paralelos únicos entre a Dona Robertina e a própria rua. Ela mais uma que migrou de algum canto do país para tentar a sorte pelas bandas d’onde a regra é o azar açucarado com a criatividade e o bom-humor. No meio, milho salgado ou dôce. E enquanto eu ia pensando no assunto com o saco de pãezinhos quentes à tira-colo, distraído por dentro – mas bem atento por fora – acabei esbarrando no Seu Damião.

Poeticamente, minha leve cotovelada se estabacou no bom humor do cabra-senhor de um sonoro “bater pode, mas num deixa o pão cair…!”. Meia dúzia de risadas para frente, Seu Damião remenda um cômico “só tem feladaputa nessa cidade… ô povo loco… vai com deus, meu cumpadrinho” e lá ganhei eu mais um ‘com-padrinho’ e vizinho, que nem sequer mora por aqui. Sem deixar cair o meu pãozinho – é, aqui não se deixa cair o pão ao invés da peteca; ninguém tem tempo de jogar peteca por essas bandas - retomei o rumo me desviando dos outros ternos e saias bem mais apressados que eu e Damião.

Boate Inferno (letreiro)

Boate "Inferno" (letreiro)

Mesmo com duas delegacias bem pregadas entre os dois pontos deste trecho da baixa-Augusta, ainda assim, se demora meio que de vinte a quarenta e cinco minutos para que meninas ofegantes e de olhos estatelados possam explicar porque não conseguiram ir além do “Alô?”.

E falando em voltar para casa, por volta das 10 e pouco da noite e com a rua ainda movimentada, uma moradora do prédio onde eu moro foi jogada no chão por dois menores e teve a sua bolsa subtraída sem dó. Não adiantou gritar nem correr e o salto alto, dessa vez, agiu como inimigo. Minha avó dizia que “… não demora nada e tudo virá pó de novo” e me pergunto: o que vai virar um pendrive cheio de documentos de pesquisa para um TCC, cartões de crédito e débito já cancelados e uns 45 reais? Sim, a Dona Olga tem razão: vai virar pó, e cola, e crack, ou qualquer outro sedativo.

Não se pára, praticamente, nem no farol. Se parar, a janela está fechada. E quem não tem pressa, tá sedado…

Mas olha só… Claro que o trabalho da polícia não é fácil… nem de longe. Sou daqueles que prefere depositar sua crença na máxima de que mesmo diante de todos os contratempos e pormenores, o buraco é mais embaixo quando o assunto é segurança pública. A política do medo nos converte em cínicos respeitadores.

Night Bikers - Pedalada do Bem

"Night Bikers" Pedalantes do Bem

Sim, você deve respeitar a arma, quer ela esteja na mão da lei para mantê-la, ou da rapaziada anestesiada e na busca de ter o que não conseguem ter sem colocar a própria lei em cheque. O problema é que o próprio instrumento da lei, desanda vez ou outra. No que confiar? Bons tempos eram aqueles em que eu pensava em ser bombeiro e achava a farda algo acima de qualquer suspeita. Nessa época eu corria para chegar em casa depois da escola e comer rabanada… Virei psicanalista, cronista e pesquisador e em quase 11 anos de prática, percebi que sonhar não dói mas confesso que ainda não entendi a piada. Não deveríamos ao menos crer que o mínimo seria estar acima de qualquer suspeita? E assim vamos sendo ‘apertados’ a nos tornar cada vez mais cínicos…

Já hoje, fácil mesmo tem ficado cada vez mais o trabalho da malandragem, de bicicleta ou a pé mesmo… Demora tanto tempo, a organização desorganiza-se esquina a esquina, que é quase garantido que se você não apertar o passo, alguém acaba apertando você.

E eu não estou falando em ser apertado na frente daquela escadinha com a luz vermelha não…

San Picciarelli

Desça a Maria

// junho 23rd, 2009 // Feedback? » // Achadas & Perdidas, Colunistas, Crônicas, Histórias, Para Ler!, San Picciarelli

pinupgala2
Paulista,
Cruzamento e luz caem
Caos uníssono
Romântico e surdo
De mãos dadas com a noite
Descida
Letreiros e cafés
Chapéus e bonés
Música muda
Mudança
Curva e mais andança
Impessoal, distúrbio
Sensação, fagulhas de luz
Retinas concêntricas
Como a tela do cinema
E às portas do teatro
Atriz, cultura e seios
Muita bunda
Lindas, horríveis
Um abraço inimaginável
Escadas deploráveis
Não-laváveis
Impossível
Escancarando probabilidades
Duas mãos na rua
Tudo a quatro mãos
Tatuagem
Frio na espinha pelos cantos
Eiras e beiras aos precipícios
Indício
Início
Praça Roosevelt

San Picciarelli

Frio… ótimo: Por que Não?

// junho 4th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Histórias, San Picciarelli

city-cold.jpgO frio, apesar do que implica já no nome e em um lugar como São Paulo, ainda pode ser uma das ‘ferramentas’ sociais das mais curiosas. É fácil notarmos como se arqueiam os corpos e as posturas quando se movimentam por uma esquina e outra, ruas afora. Paradoxalmente, me parece que as pessoas ficam um bocado mais simpáticas no frio.

É chegada mais uma vez a época de beber café e chocolate quente pelos coffee-shops e butecos da baixa-Augusta, trocar a cerveja pelo vinho, invadir o espaço de mesas cobertas… Na noite passada os termómetros diziam o que ninguém acreditaria se não pudesse sentir com os próprios ossos: 7ºC.

Como temperatura, nada demais para essa época do ano, com excepção de que o tempo tem de facto se alterado mais bruscamente nos últimos tempos. Como um fenômeno de impacto no comportamento urbano, é algo de único, de se esperar… se desejar.

Uma das coisas que me agradou imenso na Augusta desta fria quinta-feira foi a quantidade de vezes em que vi e ouvi as pessoas dizendo “pois não”, “depois de você” e um festival discreto de abrir de portas e dar-se passagens para o fulano e também o sicrano. Seria isso o frio? Será que sem a possibilidade de nos mexermos tão rápida ou flexivelmente, nos convertemos em pessoas mais… flexíveis?

Que se lotem os cafés por todo esse frio final de semana que nos espera. Que se aconcheguem os bons modos em detrimento da ausência tão esperada de pressa e pseudo-rapidez.

Hoje, o cinza é boa cor e está belo aqui por estas bandas.

Frase do Dia, por um Twitterer

// maio 15th, 2009 // Feedback? » // Histórias, San Picciarelli, Zeral

 

  

Photo Compo: San Picciarelli

 

Photo Compo: San Picciarelli

Frase by @murilocardoso (twitterer):

“90 pegaram a gripe e todo mundo quer usar máscara.

10 milhões têm AIDS e ninguém quer usar camisinha”.

 

Fecha a semana com essa então…

Ergue-se…

// abril 8th, 2009 // Feedback? » // Crônicas, Histórias, San Picciarelli

Pouco mais que a sexta badalada e o dia de Maria Augusta inclina suas pálpebras para baixo, roubando o amarelo ultravioleta reflectido janelas e portarias abaixo. Seus produtos parecem esgotados. Pois parecem. E sob o efeito do caminhar de tantas subidas em descidas, desde o nascer da manhã feita em breve memória, até o ponto mais baixo de toda a sua impaciência, inicia-se um conhecido ritual de encerramento.

Reconhecendo-se na trama de um instante da tarde, noutro da noite, praticamente tudo de si fora vendido, observado, transferido ou cobiçado por entre as rugas de suas travessas. E de lá de cima, acomodados na geometria de suas construções, propósitos ilógicos de todos os cantos da cidade executaram-se dentro de suas próprias buscas. As recepções começam a se despedir ao invés de receber. O dia sai e a ordem, como na sua normalidade, não mais há.

O chá sorvido pela senhora ao lado, caminha em seu ventre em direcção ao supermercado. A lata de spray colorido agita-se dentro da mochila d’outro moicano urbano, jovem na nobreza de seu sangue desconhecido, mas antigo na repetição de suas intenções. A lágrima dos muros escorre para dentro das bocas-de-lobo, lavando as calçadas para os rápidos pés encouraçados que se encaminham de volta, e aqueles outros desnudos que buscam se desencaminhar esta noite, sem volta.

Hoje cedo os bares serviam o café feito na combustão mais satisfatória para todas as urgências do dia que se seguiria. Já agora os cafés aquecem os maquinistas e suas locomotivas com álcool e petiscos, a lenha etílica perfeita para uma reunião de fogueiras e incômodos suspiciosos. As calçadas cedem-se de todas as suas frenéticas passadas e acomodam cadeiras sujas para as bundas nem tão mais sujas assim. O som é o de vidro barato, pleno em celebrações liquefeitas. Muda a temperatura…

O suor fermenta junto a um copo fino de alívio e que misturado à levedura de suas salivas, escorre para dentro do espírito com mais uma nota sobre os ruídos que se encerram ao seu redor. Torna-se imediatamente menos impossível se esbarrar com o acaso e com os amigos, que na inevitabilidade de se esborracharem entre si, abraçam-se em pequenos encontros líquidos, imprevisíveis e deliciosamente acolhedores.

A veia cinza da cidade pulsa duas verves mais forte como é seu costume para o horário e as cores fosforescentes das impossíveis ofertas ribombam junto com a maior parte das expectativas. A promessa do ‘ave-marias’ citadino se acimenta nas unhas pintadas e nas comandas gotejadas pelo perspirar das garrafas. O esquálido congelante dos refrigeradores abaixo dos balcões une-se milagrosamente ao calor e ao abraço de goladas bem-vindas para a noite.

A intempérie do concreto confuso em sua temperatura, encerra-se nas linhas noturnas que vão acomodando novas sortes. O conhecido perfume feminino das repetidas possibilidades ajuda a inebriar aquilo que já é anestésico em sua mais cândida essência e os amigos misturam-se aos inimigos, e ninguém mais se reconhece. Entretanto, irresponsavelmente, tudo está conectado.

Exactamente no momento em que dona Maria Augusta dá a boa-acolhida aos seus desencontrados, que à procura de se des-anestesiarem, encerram o ciclo do Sol do dia sob o sal de sua acidez, e traspassam portal da noite adentro rumo ao seu seio morno, quase sujo, cheio de marcas e ausente de quaisquer julgamentos.

Aqui a noite não cai, mas sim ergue-se…

San Picciarelli