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A Última Araucária

// junho 20th, 2009 // 4 Feedbacks » // Colunistas, Crônicas, Para Ler!

A Última Araucária
Todo dia a vejo pela janela de meu apartamento: linda, garbosa, orgulhosa, altaneira, a araucária da Rua Caio Prado está lá, solteira, única e, pelo que sei, última.
Não sei a razão, mas, desde criança, araucárias me fascinam. Talvez por ser diferente, ou por esquista, talvez por obsoleta, essa árvore sempre me chamou a atenção.
Desde sempre, então, fixei na memória as araucárias de São Paulo. Nasci em 1962: de lá para cá, lembro – bem – das localizadas na av. Ricardo Jafet, em um grande terreno próximo á confluência com a Rua Vergueiro, àquela época trilha obrigatória para quem, como minha família, saía da Vila Mariana em direção à Via Anchieta. Aquela era grande; porém, inserta em área com vegetação concentrada, vivia obscurecida. Morreu, de morte matada, na década de 80.
Também por aí sumiu uma outra, a que dominava a inclinação na qual ergueu-se, no fechar da gestão Reynaldo de Barros na Prefeitura paulistana (como esquecer os tijolos afrontosamente marcados com “RB”? Eles ainda estão lá, como assombrações), o Centro Cultural São Paulo. Sumiu! Foise-, ao que consta, de morte morrida: não conseguiu sobreviver, suponho, em meio às radiações emanadas daquele tipo de “administração” da coisa pública.
Não lembro de outra. Juro, não lembro. Em vão ando por Pinheiros, onde pinheiros não há senão alguns alienígenas, importados, como os romanos, decerto mais chiques. Caminhar pela rua dos Pinheiros se trata do mais puro exercício de masoquismo: não há árvores, nenhuma, nada!, muito menmos pinheiros.
Acho que os tais pinheiros que deram nome ao bairro se tratavam, exatamente, das araucárias. Debret fixou-se numa, ao registrar, da Ladeira da Memória, a colina histórica, pondo-a em primeiro plano em soberba aquarela. O fez, é claro, para determinar a árvore que mais significava a Piratininga do Século XIX, aquela vila obscura e medíocre, mas fundamental para se alcançar o sertão: o Tietê estava lá.
E só sobrou uma? Essa, a que vejo da janela com gosto e medo, temor de que o dono do terreno a ponha abaixo em nome do “progresso”, essa que está linda, copa cheia, 360 graus de verde intenso. Essa que, inexplicavelmente, subsiste bem ali, no centro, entre Caio Prado e Marquês de Paranaguá, eu a vejo da Augusta, dando costas àquele pesadelo que é o trânsito da Consolação.
Ela está lá, resiste, e vem resistindo há quanto tempo? É autóctone, não tenho dúvidas, ela está lá desde antes de São Paulo, mas corre o risco de ser abatida pela mesma São Paulo cuja história deu-se e dá-se ao seu redor.
Quantas mais existirão em São Paulo? Não sei, não conheço outra, e não me conformo com isso: trata-se de uma planta originária, das que sempre existiram aqui, mas que, por uma inapelável sentença humana, erradicou-se. Será por que é estranha? Ou feia? Ou diferente? Ou distinta? Ou por que não tem perfume, nem flores? Ou por que, sem parentalha, viceja numa diversidade tal que a pasmaceira social teria de liquidar?
Eu não sei; contudo, já que tantas há, e por causas tão ridículas quanto escusas, proponho uma ONG: a dos amigos da última araucária de São Paulo, a da Caio Prado. Que a defenda, lute contra sua eventual destruição, e que, com base nisso, pugne pelo replantio delas: a araucária não pode desaparecer!

araucariaTodo dia a vejo pela janela de meu apartamento: linda, garbosa, orgulhosa, altaneira, a araucária da Rua Caio Prado está lá, solteira, única e, pelo que sei, última.

Não sei a razão, mas, desde criança, araucárias me fascinam. Talvez por ser diferente, ou por esquista, talvez por obsoleta, essa árvore sempre me chamou a atenção.

Desde sempre, então, fixei na memória as araucárias de São Paulo. Nasci em 1962: de lá para cá, lembro – bem – das localizadas na av. Ricardo Jafet, em um grande terreno próximo á confluência com a Rua Vergueiro, àquela época trilha obrigatória para quem, como minha família, saía da Vila Mariana em direção à Via Anchieta. Aquela era grande; porém, inserta em área com vegetação concentrada, vivia obscurecida. Morreu, de morte matada, na década de 80.

Também por aí sumiu uma outra, a que dominava a inclinação na qual ergueu-se, no fechar da gestão Reynaldo de Barros na Prefeitura paulistana (como esquecer os tijolos afrontosamente marcados com “RB”? Eles ainda estão lá, como assombrações), o Centro Cultural São Paulo. Sumiu! Foise-, ao que consta, de morte morrida: não conseguiu sobreviver, suponho, em meio às radiações emanadas daquele tipo de “administração” da coisa pública.

Não lembro de outra. Juro, não lembro. Em vão ando por Pinheiros, onde pinheiros não há senão alguns alienígenas, importados, como os romanos, decerto mais chiques. Caminhar pela rua dos Pinheiros se trata do mais puro exercício de masoquismo: não há árvores, nenhuma, nada!, muito menmos pinheiros.

Acho que os tais pinheiros que deram nome ao bairro se tratavam, exatamente, das araucárias. Debret fixou-se numa, ao registrar, da Ladeira da Memória, a colina histórica, pondo-a em primeiro plano em soberba aquarela. O fez, é claro, para determinar a árvore que mais significava a Piratininga do Século XIX, aquela vila obscura e medíocre, mas fundamental para se alcançar o sertão: o Tietê estava lá.

E só sobrou uma? Essa, a que vejo da janela com gosto e medo, temor de que o dono do terreno a ponha abaixo em nome do “progresso”, essa que está linda, copa cheia, 360 graus de verde intenso. Essa que, inexplicavelmente, subsiste bem ali, no centro, entre Caio Prado e Marquês de Paranaguá, eu a vejo da Augusta, dando costas àquele pesadelo que é o trânsito da Consolação.

Ela está lá, resiste, e vem resistindo há quanto tempo? É autóctone, não tenho dúvidas, ela está lá desde antes de São Paulo, mas corre o risco de ser abatida pela mesma São Paulo cuja história deu-se e dá-se ao seu redor.

Quantas mais existirão em São Paulo? Não sei, não conheço outra, e não me conformo com isso: trata-se de uma planta originária, das que sempre existiram aqui, mas que, por uma inapelável sentença humana, erradicou-se. Será por que é estranha? Ou feia? Ou diferente? Ou distinta? Ou por que não tem perfume, nem flores? Ou por que, sem parentalha, viceja numa diversidade tal que a pasmaceira social teria de liquidar?

Eu não sei; contudo, já que tantas há, e por causas tão ridículas quanto escusas, proponho uma ONG: a dos amigos da última araucária de São Paulo, a da Caio Prado. Que a defenda, lute contra sua eventual destruição, e que, com base nisso, pugne pelo replantio delas: a araucária não pode desaparecer!

Eduardo De Carvalho

Frio… ótimo: Por que Não?

// junho 4th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Histórias, San Picciarelli

city-cold.jpgO frio, apesar do que implica já no nome e em um lugar como São Paulo, ainda pode ser uma das ‘ferramentas’ sociais das mais curiosas. É fácil notarmos como se arqueiam os corpos e as posturas quando se movimentam por uma esquina e outra, ruas afora. Paradoxalmente, me parece que as pessoas ficam um bocado mais simpáticas no frio.

É chegada mais uma vez a época de beber café e chocolate quente pelos coffee-shops e butecos da baixa-Augusta, trocar a cerveja pelo vinho, invadir o espaço de mesas cobertas… Na noite passada os termómetros diziam o que ninguém acreditaria se não pudesse sentir com os próprios ossos: 7ºC.

Como temperatura, nada demais para essa época do ano, com excepção de que o tempo tem de facto se alterado mais bruscamente nos últimos tempos. Como um fenômeno de impacto no comportamento urbano, é algo de único, de se esperar… se desejar.

Uma das coisas que me agradou imenso na Augusta desta fria quinta-feira foi a quantidade de vezes em que vi e ouvi as pessoas dizendo “pois não”, “depois de você” e um festival discreto de abrir de portas e dar-se passagens para o fulano e também o sicrano. Seria isso o frio? Será que sem a possibilidade de nos mexermos tão rápida ou flexivelmente, nos convertemos em pessoas mais… flexíveis?

Que se lotem os cafés por todo esse frio final de semana que nos espera. Que se aconcheguem os bons modos em detrimento da ausência tão esperada de pressa e pseudo-rapidez.

Hoje, o cinza é boa cor e está belo aqui por estas bandas.

Aqui é Movida!

// abril 8th, 2009 // 1 Feedback » // Colunistas, Crônicas

O “flaneur” (aquele que gosta de passear) gosta também de descansar sentado a uma mesa de café. Sentar e tomar um chá gelado, sentar e ler a Folha, sentar e ver as pessoas passarem. Isso já é bom em qualquer lugar do mundo, mas na Augusta ou região, é simplesmente delicioso.

Que seja no terraço do Vanilla Café (Antônio Carlos, 404), nos botecos de esquina (como aquele da Frei Caneca com a Peixoto Gomide, o bar da Loca), naqueles que ficam nas entradas das galerias (Augusta, Le Village…), ou ainda dentro dos cinemas Unibanco, dos dois lados da Rua. Eles são verdadeiros oásis de tranquilidade no meio dessa loucura e agitação toda.

Aqui mais uma vez tudo pode acontecer, pelo menos, se você quiser, basta participar desse intercâmbio sensitivo onde uma Amy Winehouse pode envolver-se com um Edward Mãos-de-Tesoura ou um Harvey Milk com um Almodóvar boy. Os cinéfilos, os filósofos, os modernos (aqueles mencionados pela Adriana Calcanhoto), os gays, claro, os roqueiros, as moças fáceis e as não tão fáceis… todo esse belo mundo cansou de gostar de saber que é ele o motor dessa tormenta toda.

* Movida: Movimento artístico espanhol da década de 80 que estourou após a ditadura franquista. Foi a época dos primeiros filmes de Almodóvar.

Aqui é NY

// março 30th, 2009 // 1 Feedback » // Colunistas, Crônicas

Estou aqui no Bossa Nova Café, lá embaixo instalado numa confortável cadeira azul! O espaço é aconchegante e bem tranquilo nesta hora (18h40), só basta pedir ao garçom desligar a televisão, única coisa cafona do lugar.

Essa epidemia de monitores LCD em toda parte, já contei 20 desses num mesmo bar, é de arrepiar! Não combina com a Rua Augusta e esse televisor no Bossa Nova é um estranho no ninho. Melhor um DVD da Elis Regina ou então nada. Será que precisamos ficar conectados o tempo todo com o “plim plim” da Globo?

Estou aqui para escrever esta crônica, não para ver ou ouvir propaganda da expansão do metrô, que passará, aliás, perto daqui, pois terá uma estação com o nome de “Paulista” na futura linha 4 (bem ao lado do cinema HSBC Belas Artes). Vai ser tão bom ter mais metrô nesta cidade. Poderia também ter mais ciclovias, mais ruas exclusivas para pedestres.  Mas vamos parar de reclamar… por enquanto.

Pois aqui é NY. Esse outro centro nevrálgico da Metrópole está bem aqui na Rua Augusta entre a Paulista e a rua Fernando de Albuquerque, que a liga à Bela Cintra. Aqui tudo se concentra, as tribos, as diversões, as atividades culturais e comerciais…

Essa Augusta já tão famosa pelo seu glamour passado continua linda! Não! Não é de Beleza que se trata, mas de energia, de acontecimentos permanentes, de mistura inexplicável que só existia em NY. Basta andar, observar e ver esse espetáculo ao céu aberto que essa rua oferece.

Nada melhor que “flâner” (passear sem destino preciso em francês) de dia ou de noite na Augusta. Dois mundos, numa mesma rua. São Paulo é assim, não sou a Rua Augusta como também a boêmia Vila Madalena, que possui essa capacidade de se transformar ao pôr do Sol.

A peculiaridade da Augusta é mesmo a concentração de tanta energia em pouco espaço (são, afinal, pouco mais de três quarteirões). Como se fosse um átomo concentrado, uma energia fora do comum. Para os céticos, os convido a passear por aqui numa sexta ou sábado por volta das oito, nove da noite. Tudo começa na saída do metrô “Consolação”, aí você sente que está no meio de onde tudo acontece!

Bom passeio!

DICA – Bossa Nova Café e Bar (Rua Augusta, 1526 – Loja 1A)

Buffet de café da manhã – seg. a sex., das 7h às 12h; sáb., das 9h às 12h. R$ 6,00.

São Paulista, Santa Augusta

// março 5th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Crônicas, San Picciarelli

 

source: Jessica Trotter Photography

Jessica Trotter Photography

Mesmo que não haja motivos suficientes para que as crenças tomem agora o lugar das razões, ainda assim, subjaz uma cínica e acinzentada sensação de paz, de arredor, entre os largos e vácuos cômodos da cidade. Basta que caminhemos desarmados de nossas inquietudes, pelas venosas ruas e avenidas dispostas na imensidão da divisão e dos caminhos, para que caiamos voluntariamente no mínimo geo-métrico de nossos próprios descaminhos.

A nascente líquida e férrida de linhas e contornos, feita os trilhos de uma locomotiva a todo o vapor, com perca umidade relativa e rasa liquidez sensorial, simplesmente, nos descarrila. Não daquele que vê a via, dentro de nós mesmos, auto-absorvido pelo ódio ocioso da nossa intemperança. Mas daquele que via o caminho, do lado de dentro do outro, que nos cerca daquele modo tão não-intencional, sobremaneira inocente e ainda assim, emocionalmente carnívoro.

Há luz por entre as frestas, há o café quente e o rebuscado carbônico dos escapamentos. Não há escapatória. Há muitas válvulas, de escape, que escapam… Mas a ordem, não há.

As esquinas não mais guardam a poesia dos tempos e os seus cantos escuros, cada vez mais escuros, já não mais dependem da espreita ou da escapada da sorte para atrair a captura dos vitimados e dos voláteis. A sua acolhida nem sequer se ruboriza e o seu convidatorismo não é menor que o seu descaramento. E dali, do meio da sua cara suja brotam os germinais mais pueris, das suas entranhas, brutalmente preparados para tudo, totalmente despreparados para nós. Poderiam ser os nossos filhos…

E de nem sequer conhecimento, sequer percepção, horrorizamo-nos copiosamente, quase que disciplinarmente, para que assim não nos envolvamos.

É melhor por esta via…

É mais segura essa sorte…

A vergonha e a anestesia moral.

Eu e

As vias.