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São Paulo Congelada

// julho 24th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Fotojornalismo, San Picciarelli

Hoje pela manhã bem cedinho saiu no jornal que provavelmente a cidade teria hoje o dia mais frio do ano. Dessa vez, os noticiários não estavam brincando. Não falo somente das roupas pesadas e dos passos um pouco mais apressados que a urgência normal da cidade. Mas sim, de outros tipos distintos de baixa temperatura…

A sensação térmica do ar é ainda mais baixa quando faz par com a sucessão de spots no rádio e na tv, dando conta de uma incômoda sensação de despreparo do sistema de saúde do estado. Números são corrigidos, alarmes são soados e desculpados, um pai chora a perda de sua filhinha em São Paulo à frente dos microfones e câmeras – a única coisa a se fazer após ir de hospital a hospital, posto a posto e ouvir apenas “isso não é nada”. Outro marido faz o mesmo no Rio de Janeiro, após dizer o adeus forçado à sua mulher e filho (ainda para nascer). A dor é deles, mas o medo é todo nosso.

Problema? Sim, e como…

Influenza A H1N1, esse é apenas um dos seus nomes. Enquanto as autoridades passam-nos o discurso que “tudo está sob controle” e que “estamos preparados”, velamos nosso rosto com máscaras cirúrgicas, antecipamos e adiamos prazos escolares ou profissionais, olhamos para dentro de nossas blusas pelos metrôs e ônibus e nem sequer devemos dar as mãos nos cultos e encontros pelas igrejas e butecos da cidade. Não importa a religião ou ocupação, hoje, no dia provavelmente mais frio do ano, estamos um bocadinho mais separados.

Mas o problema não é apenas o frio centígrado. Para que não me estenda muito nessa breve crônica, darei apenas um endereço e anexarei a ele uma imagem. Se o amigo leitor estiver bem acomodado, aquecido e protegido, talvez lhe seja possível “ignorar ao contrário” e fazer o não-óbvio: deletar a pressa enquanto pensamos juntos num outro tipo de frio – talvez bem pior que a baixa temperatura: o frio moral.

Esq. da R. Antonio Carlos com R. Frei Caneca, as 12hs47 - by San Picciarelli

Esq. da R. Antonio Carlos com R. Frei Caneca, as 12hs47, Julho/2009, dia 24 - by SP

Com a câmera na mão – armamento imediatamente disponível – ajustei a lente… velocidade… iso… abertura… não fechei os olhos.

Uma pontada surpreendente. Meu coração doeu.

De frio.

San Picciarelli

Frio… ótimo: Por que Não?

// junho 4th, 2009 // Feedback? » // Colunistas, Histórias, San Picciarelli

city-cold.jpgO frio, apesar do que implica já no nome e em um lugar como São Paulo, ainda pode ser uma das ‘ferramentas’ sociais das mais curiosas. É fácil notarmos como se arqueiam os corpos e as posturas quando se movimentam por uma esquina e outra, ruas afora. Paradoxalmente, me parece que as pessoas ficam um bocado mais simpáticas no frio.

É chegada mais uma vez a época de beber café e chocolate quente pelos coffee-shops e butecos da baixa-Augusta, trocar a cerveja pelo vinho, invadir o espaço de mesas cobertas… Na noite passada os termómetros diziam o que ninguém acreditaria se não pudesse sentir com os próprios ossos: 7ºC.

Como temperatura, nada demais para essa época do ano, com excepção de que o tempo tem de facto se alterado mais bruscamente nos últimos tempos. Como um fenômeno de impacto no comportamento urbano, é algo de único, de se esperar… se desejar.

Uma das coisas que me agradou imenso na Augusta desta fria quinta-feira foi a quantidade de vezes em que vi e ouvi as pessoas dizendo “pois não”, “depois de você” e um festival discreto de abrir de portas e dar-se passagens para o fulano e também o sicrano. Seria isso o frio? Será que sem a possibilidade de nos mexermos tão rápida ou flexivelmente, nos convertemos em pessoas mais… flexíveis?

Que se lotem os cafés por todo esse frio final de semana que nos espera. Que se aconcheguem os bons modos em detrimento da ausência tão esperada de pressa e pseudo-rapidez.

Hoje, o cinza é boa cor e está belo aqui por estas bandas.